domingo, 8 de março de 2015

Pra corações fracos
Receita rápida :
Verdades homeopáticas
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“Uau, tinha tinta embaixo!”

“Uau, tinha tinta embaixo!”
Entrevista com Ricardo Prado Lima

Nosso entrevistado da semana é o psiquiatra Ricardo Prado Lima, que também é um artista contemporâneo conhecido pela sua criatividade.
Nos encontramos com Ricardo em uma noite de sábado e utilizamos o múltiplo olhar do grupo para a descrição do fenômeno conversar. “Transcender”, como nos diz Ricardo.
 

Ricardo Prado Lima

Em que momento você iniciou como artista?
Difícil dizer, mas acho que há muito tempo. Desde criança gostava de ler, escrever e assistir a filmes que não eram comuns aos outros garotos da minha idade. Comecei a expressar isto por meio de desenhos, pinturas, escrevendo e tirando fotos. Pouco depois, imaginava roteiros para filmes e teatro. Até que ganhei uma Super 8 aos 10 anos e sonhava ser cineasta. Quando acabei o Segundo Grau, fiz vestibular para Artes Cênicas, mas logo vi que não era minha praia. Acabei fazendo Medicina, mesmo mantendo minha produção artística.
O que inspira sua criação?
Tudo! Mesmo em uma loja de ferragens começo a imaginar o que poderia ser feito com aqueles materiais. Mas acho que o contato com o ser humano é a minha maior fonte. Trabalhar como médico, vendo todas as emoções humanas de tão perto... Não tem como ficar imobilizado. Por isto talvez trate de temas como solidão, abandono, tristeza, perdas e cicatrizações. Talvez tudo isso me leve a tentar superar a minha impotência por meio da criação.
Como é o seu processo de criação?
É um processo doloroso porque basicamente minha criação é solitária, apesar de extremamente prazerosa. Lidar com tintas e ter o vazio do branco de uma tela é algo desafiador, algo inexplicável. Adoro imolar a tela com cores, observar, voltar com fúria total sobre ela, pensar, da mesma forma que o escritor. Adoro que minhas telas tenham um passado, uma história para contar, mesmo com outra tinta por cima. Sempre quero que vejam o processo. “Uau, tinha tinta embaixo”. Faço isto propositalmente. Por outro lado, há algo completamente inconsciente e que não tenho como controlar. Desse, nem dou conta.
E o trabalho de decidir a conclusão de uma obra? Quando uma peça fica pronta ?
Tem situações em que a obra parece que já nasce de parto normal: fiz e está pronta. Outras vezes – aliás, na maioria delas –, fico observando, escondo do meu olhar, volto a rever. Outras vezes as pessoas se apaixonam e deixo a obra sair do atelier e ganhar o mundo. Mas, muitas vezes, minha insegurança faz com que eu guarde algumas obras no armário. Sou extremamente critico da minha produção.
Ricardo, você sempre pareceu muito generoso.
Nem sempre me sinto generoso, mas acho que sou, sim. Como não ser? As coisas, as pessoas, há carências… Por que não ajudar? Apesar de às vezes me achar extremamente egoísta, gosto de ser generoso com meus amores, paixões e amigos. Sou intenso em tudo o que faço. Tenho que ter tesão. E assim me entrego por completo e mergulho em abismos. Acho que tenho que ser generoso comigo, vivendo minha intensidade, e isto vai logicamente refletir minha generosidade com minhas relações e minha arte.
Você recebe com a mesma facilidade que entrega?
Não sei. Recebo muitas coisas o tempo todo. Afeto, principalmente, é uma das coisas que mais gosto de receber. E ao mesmo tempo sou muito ciumento dos que me são próximos.
Faço reconhecer minhas dificuldades e diferenças logo de cara. Sei que isto nem sempre é bem-vindo, o que me torna muitas vezes solitário.
Acho fundamental que minha essência seja preservada e vou continuar a existir ainda que nem todas as relações legitimem minha essência. Do mesmo modo, encontro a singularidade nas pessoas que me cercam com facilidade. Isto faz com que minha arte possa ser expressada nas relações.
Como é sua relação com o público de arte?
Há muitos públicos para a arte. Gosto do público que vai a lugares desconhecidos, que tenta descobrir o que aprecia e sinaliza.
O que é criar?
Superar. É reconhecer nossa impotência frente a algo que transcende; jogar-se sem medo. É ter a ousadia de fazer o diferente surgir. Criar é encontrar deus em suas diferentes formas.
 
*****

O consultório de Ricardo Prado Lima fica na Rua Califórnia, 702 - Brooklyn Novo, São Paulo, SP. Fone: (11) 5561-2277. Poemas escritos por ele também estão disponíveis no site ricardopradolima.blogspot.com.br.

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